INOVAR É PRECISO.

Artigo de Claudio Rodrigues publicado no Valor Econômico do dia 19 de Julho de 2011.

“O Brasil precisa investir em inovação” é quase um “mantra” recitado por empresários, governo, pesquisadores e mídia. Apesar dessa aparente unanimidade, os resultados atuais, como mostrados na Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2008 e no relatório Unesco sobre Ciência – 2010, no capítulo sobre o Brasil, são ainda tímidos quando comparados, por exemplo, com Índia, China e Rússia, parceiros do Brasil no grupo dos Brics. São consequência direta das decisões que tomamos no passado ou que julgávamos irrelevantes e não resultado de discursos entusiasmados. Talvez seja hora de nos perguntarmos se esse “mantra” não é um “carma”.

A inovação não se dá por acaso, muito menos pode ser entendida como um evento isolado. É um processo que requer continuidade, maturação, entendimento, capacitação e ambiente favorável, apropriado e incentivado.

A inovação, apesar de se consubstanciar dentro das empresas, sendo fator de melhoria de seus produtos, processos, marketing e gestão organizacional e consequentemente da sua competitividade e produtividade, das conquistas de novos mercados, da geração de empregos de qualidade e das oportunidades de renda, tem como resultado final o crescimento da riqueza nacional. Por essa razão o apoio do governo como protagonista é relevante para alcançar seus objetivos.

No Brasil, o governo se faz presente, ainda que de maneira modesta. Nas agências de fomento como Fapesp, CNPq e Finep, bem como nos marcos regulatórios das leis de inovação federal e estaduais, da Lei do Bem e dos fundos setoriais, se identificam instrumentos específicos de apoio à inovação empresarial, com espaço para adequação das atuais legislações, de modo a ampliar o benefício para as pequenas e médias empresas.

A esses se somam o entendimento, hoje melhor que o de ontem, de que a academia e o setor empresarial devem vencer paradigmas. A academia se engajando mais, mantidas suas atribuições de ensino e pesquisa de qualidade, na identificação e atendimento das demandas do setor empresarial e este investindo, de maneira mais relevante, na realização de pesquisa e desenvolvimento empresarial e na contratação de mestres e doutores e, com isso, participando mais efetivamente nas ações de apropriação e utilização de conhecimento e nas interseções com o mundo científico e tecnológico, nas universidades e institutos de pesquisa.

O número de patentes anuais registradas no USPTU, apesar de ser ainda modesto, menor do que 10% do registrado pela China, não o é se esses indicadores forem medidos “per capita”. Nesse caso, com base em dados da Fapesp, o número de patentes por pesquisador em empresas é 1,7 no Brasil enquanto na China é 1,3.

Somos poucos, porem competentes. Iniciamos tarde e melhoramos lentamente. Isso ainda está longe do suficiente. São ações que mantidas, ampliadas e universalizadas, permitem ver dias melhores para os resultados da inovação no País.

Ao se deter no “locus” da inovação empresarial, as micro e pequenas empresas que hoje representam mais de 90% dos cerca de seis milhões de estabelecimentos formais no país, com mais de 50 milhões de empregos gerados, se apresentam como o segmento com maior impacto para alavancar o crescimento da inovação e consequentemente da competitividade das empresas brasileiras.

Quando se foca no universo dessas empresas com negócios tecnológicos, os recursos das agências de fomento, as políticas públicas, aproximação com o mundo acadêmico, participação de pesquisadores, valorização da propriedade intelectual, se tornam mais atuantes e visíveis, contribuindo para o sucesso desses empreendimentos que passam a ter um lugar ao sol no panorama da inovação nacional e no mercado.

Como facilitadores desse processo, as incubadoras de empresas e parques tecnológicos, como “habitats” onde, naturalmente, se estabelecem sinergias para o sucesso dessas empresas e não um ambiente de concorrência que não ajuda, nesse momento de fortalecimento de seus negócios, são agentes capazes de desempenhar um papel relevante no apoio à solução dos gargalos tecnológicos, empresariais e mercadológicos demandados nesse universo.

Somos hoje, segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), um país com cerca de 400 incubadoras de empresas e 20 parques tecnológicos. Nessas incubadoras orbitam hoje mais de 4.800 empresas, tendo sido graduadas para o mercado, nos últimos dez anos, perto de 1.500 dessas instituições.

Em São Paulo, como preconiza a sua Lei de Inovação, foram criados, recentemente, o Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec) e a Rede Paulista de Incubadoras Tecnológicas (RPITec), identificados, juntamente com o Fundo Estadual Científico e Tecnológico (Funcet), como agentes no apoio a inovação empresarial, empreendedorismo e a criação e fortalecimento de empresas de base tecnológica, inclusive e especialmente de pequenas empresas.

São processos que têm como foco os desafios de uma participação importante e crescente no mercado e na geração de empregos de qualidade. Desafios que pela sua relevância e oportunidade exigem uma cruzada, com governo e sociedade presentes, rumo a uma maximização da inovação empresarial.

Atualizando a reflexão de Fernando Pessoa, “navegar é preciso” e foi preciso para vencer os desafios que se apresentavam no quadro político e macro econômico de centenas de anos atrás, seria de todo pertinente dizer, hoje, que “Inovar é preciso” e… viver, com qualidade e bem, também.

Nem mantra nem carma, a inovação é e será o resultado de nosso entendimento e das nossas ações.

Fonte: Jornal da Ciência.

 

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