Novo presidente do CNPq fala de recuperação e parcerias

Um dia após assumir oficialmente a presidência do CNPq, o engenheiro e pesquisador Mario Neto Borges concede entrevista à Fapemig


O engenheiro e pesquisador Mario Neto Borges assumiu oficialmente a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no dia 24 de outubro. Ele assume em um momento difícil, marcado por cortes em programas e redução de orçamento, mas adianta que deseja retomar parcerias e implementar ideias que ajudarão a encontrar “um caminho para sair do fundo do poço”.

A expectativa da comunidade científica é grande e ele reconhece que isso é um incentivo, mas também aumenta o desafio. “A responsabilidade é muito grande e não posso decepcionar ninguém. Então vou ter que trabalhar muito aqui e, para isso, certamente, eu conto com todos os parceiros e instituições que labutam pela área de Ciência, Tecnologia e Inovação. É uma oportunidade que temos de virar esse disco negativo e começar uma vida nova e boa daqui para frente”.

Nesta entrevista, Borges, que já foi reitor da Universidade Federal de São João del Rei, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e presidente do Conselho das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), fala sobre seus planos e expectativas à frente da entidade.

(Nota: entrevista concedida no dia 25/10)

O senhor assume em um momento delicado, com cortes em programas do CNPq e falta de recursos para a ciência como um todo. Qual será sua estratégia para enfrentar esse momento difícil?
Eu tenho algumas ideias. A primeira é recuperar a boa articulação – que estava faltando – entre o CNPq e os seus parceiros, sejam eles do governo federal, dos governos estaduais, como as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, ou, especialmente, da área internacional. Eu aprendi bastante nesses últimos dois anos sobre a área internacional, onde existem recursos não desprezíveis que nós podemos usar em parceria com o CNPq. Acho que isso vai trazer alternativas para avançarmos nesse ponto. Também existe um certo compromisso e uma disposição do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações de que a área da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), sendo estratégica para o País, possa realmente recuperar recursos. É logico que será de forma escalonada, com tempo. Mas juntando essa disposição de recuperar a área de CT&I com as parcerias que podemos desenvolver, tanto nacionais quanto internacionais, acho que vamos encontrar um caminho para sair do fundo do poço.

Além do problema dos recursos, o senhor também precisará lidar com o descontentamento de várias entidades e associações científicas relacionado à fusão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o Ministério das Comunicações. Isso dificultará o diálogo com esses parceiros?
Não, eu acredito que, na verdade, o pessoal está começando a entender melhor essa fusão no sentido da diminuição da máquina pública tão necessária para o País encontrar de novo o seu rumo de desenvolvimento. No início, a fusão realmente nos assustou, levando a pensar que a área de CT&I ficaria em segundo plano. Mas o que nós estamos observando, e também as próprias entidades parceiras como ABC (Academia Brasileira de Ciências), SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Confap, dentre outras, é que, na verdade, pelo menos sob a liderança do ministro Kassab, a área tem recebido uma atenção especial e há uma disposição grande para fazer essa recuperação que mencionamos na sua pergunta anterior, ou seja, reestabelecer um caminho de recuperação, passo a passo, mas firme, na direção da valorização da CT&I como uma estratégia importante para o desenvolvimento do Brasil.

Uma questão mais pontual, que tem gerado muitos questionamentos, diz respeito ao programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). O senhor teria alguma sinalização sobre o futuro desse programa, ou a contratação dos projetos que já passaram pelo julgamento das comissões do CNPq?
Essa é primeira notícia boa que tenho. Hoje, em uma reunião, comentei que além de ter muita disposição, também sou pé quente. Por exemplo, quando eu cheguei na Fapemig, ela estava no fundo do poço. Aos pouquinhos foi se recuperando e hoje a Fapemig tem todo esse destaque no cenário nacional. Então, a primeira notícia boa é que nós tomamos os INCTs como sendo a prioridade zero. Conseguimos convencer não só o Ministério, mas também a Presidência da República sobre a importância do programa. Os Institutos Nacionais são um dos dois projetos estratégicos da Presidência da República em CT&I – um é o lançamento do satélite, o outro são os INCTs. Hoje (25/10), a diretoria executiva do CNPq bateu o martelo, internamente, sobre o resultado do Programa. Amanhã teremos uma reunião com o comitê executivo que avalia os INCTs – ele é coordenado pelo Ministério, mas tem representação do Confap, da SBPC, da ABC e da comunidade científica – para então, se Deus quiser, divulgar no dia seguinte o resultado. É uma boa notícia e também uma solução muito bacana que foi trabalhada, preparada antes da minha chegada, mas que nós estamos ajudando na articulação, inclusive política e orçamentária, e que vai ser apresentada na reunião de amanhã. Depois disso, vamos divulgar para os pesquisadores. Acredito que eles terão boas notícias amanhã ou depois de amanhã. (Nota: O resultado, como adiantado, foi publicado no site do CNPq no dia 26/10 e pode ser acessado aqui)

O senhor tem um passado muito ligado às Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) e ao Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). Que papel essas entidades terão em sua gestão?
Esse é um ponto muito importante, e que tem uma certa sensibilidade porque a parceria do CNPq com a FAPs sempre foi muito forte, mas nos últimos tempos estava entrando em colapso. A relação estava se desgastando, a questão dos INCTs trouxe muitos problemas dentro do CNPq e entre o CNPq e o Confap. Mas felizmente nós conseguimos agora estabelecer uma relação mais positiva. Já disse isso aqui dentro, nós vamos reestabelecer a boa relação e, mais que isso, vamos melhorá-la. Essa é uma obrigação que tenho sendo conhecedor dos dois lados do balcão. Portanto, é um compromisso meu aperfeiçoar a parceria entre o CNPq e as FAPs.

Por fim, que novidades podemos esperar? O senhor pode adiantar alguma coisa sobre novos programas e ações?
Por enquanto, estou me concentrando nas pendências que são problemas importantes para os pesquisadores do Brasil todo, como, por exemplo, os INCTs que você citou, mas existem outros também com uma situação bastante complicada. Então, minha ideia inicial é colocar esses problemas em uma trajetória de solução para depois começar nossos programas. Mas, certamente, eu tenho algumas ideias e a internacionalização passa a ser uma das bandeiras que eu trago para o CNPq. Nos últimos tempos, isso ficou praticamente abandonado aqui e tem um potencial muito grande. Aprendi isso no período que passei assessorando o Confap nessa área e vejo que existe, no nível do governo federal, uma oportunidade de ouro, com possibilidade de parcerias com a União Europeia, com o Reino Unido, entre outros. Nós podemos avançar muito nessa área. Essa seria uma novidade que eu gostaria de avançar e trabalhar logo no início da minha gestão, mas sempre lembrando que o foco principal é resolver os passivos e as pendências que ainda existem e que precisam ser equacionados.


Fonte: Jornal da Ciência e Fapemig

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