“Nossos políticos ainda não perceberam que o mundo está na economia do conhecimento”, diz presidente da SBPC

Em palestra em Brasília, cientista destaca ambiente de negócios desfavorável para estimular a inovação


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Presidente da SBPC, Helena Nader, proferiu palestra “Fatos e Desafios da Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil”, no segundo dia de Fórum RNP 2016, em Brasília. (Crédito: Estevam Rocha)

Não é culpa da ciência o fracasso da inovação do País e nem dos empresários. A frase é da presidente da SBPC, Helena Nader, para ilustrar as dificuldades para inovar no Brasil, diante de um ambiente desfavorável para os negócios inovadores – em palestra sobre o tema “Fatos e Desafios da Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil”, realizada no Fórum RNP 2016, nesta quarta-feira, 9, em Brasília.

Em sua apresentação, Nader discordou de críticas que considera tendenciosas publicadas na imprensa segundo as quais “a nossa ciência” é periférica, que não tem impacto e nem citação. “A nossa ciência é boa, queremos ser melhor. E pela quantidade do financiamento é fantástico o que já conseguimos”, disse ela, destacando, por exemplo, o ineditismo no mundo das publicações brasileiras associando o vírus Zika à microcefalia.

Nader apresentou dados do Índice Global de Inovação 2016 que ilustram o avanço da ciência brasileira em vários pontos. Lançado em agosto pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, o índice avaliou 128 países, com base em 82 indicadores e se concentrou no impacto das políticas de inovação para as estratégias de crescimento econômico e desenvolvimento.

O índice leva em consideração a educação, pesquisa e desenvolvimento. Em número de citações por documento (em ordem decrescente), a cientista chamou a atenção para a participação dos Estados Unidos (EUA), em 94 (cites per document). “Por que ninguém fala sobre isso no Brasil?”. No ranking de citações, Israel figura com 78, a Suíça 38, o Brasil com 186 e a China, com 160.

A cientista entende que o crescimento da amostra de citação influencia na classificação dos resultados. Dessa forma, acrescentou que se levada em consideração o limite de 10 mil artigos publicados no ano, a posição dos EUA pula para 5º lugar, o Canadá para 10º, Alemanha, 13º, Japão, 27º, Brasil 52º, com mais de 30 mil citações, e Argentina, 34º.

“Se eu tenho um país que publicou muito pouco e teve muita citação é o campeão de audiência. Não é justo comparar coisas distintas. Esse é outro mantra que temos que começar a repercutir.”

Interdisciplinaridade

Embora reconheça a necessidade de aumentar a colaboração internacional, Nader observa que a ciência brasileira está em um patamar favorável no campo da interdisciplinaridade, para onde o mundo diz que tem de caminhar. Nesse quesito, disse que o Brasil figura hoje entre a 4ª e 5ª posições, dependendo do método de análise dos dados na ordem: Índia (13%), China (12%), Coreia (11,9%), Brasil (11%), Itália (10,3%), EUA (9,7%), Japão (9,7%), United Kingdom (9,1), Alemanha (8,5%).

Enquanto isso, o indicador relacionado à inovação do País ocupa a 69ª no ranking das economias mais inovadoras do mundo. De acordo com o Índice Global de Inovação, no desempenho de inovação a Suíça ocupa a primeira posição no ranking de 2016, seguida pela Suécia, pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos.

Um dos pontos que interferem no baixo desempenho na inovação é o ambiente de negócios desfavorável. Nessa área, a cientista lamentou o fato de o país ter recebido nota 01, em uma escala de zero a 100. Já no quesito facilidade de abrir negócio a nota foi 2,8, na mesma escala. Esses resultados mostram que o Brasil foi mais do que reprovado, segundo Nader. O estudo mostra que o país figura na 123ª posição em ambiente de negócio e nos elementos da educação terciária, em 111%.

“É culpa nossa? Nós não estamos fazendo a lição de casa?”, questionou a cientista. “Dizer que temos de olhar mais para o mercado porque a ciência brasileira não está olhando é não olhar o Global Innovation Index”, pontuou ela, embora reconhecendo a importância de aumentar cada vez mais a ciência aplicada.

Tradicionalmente, as críticas do setor empresarial recaem sobre o Custo Brasil – carga tributária excessiva, burocracia e infraestrutura carente, além da volatilidade econômica e taxa de juros elevada, estimulando as aplicações no sistema financeiro e, consequentemente, a postergação dos investimentos na produção.

“Com esse ambiente de negócios quem é que vai querer aplicar mais em inovação? Se pode aplicar nos bancos e ganhar uma fortuna, por que aplicar o mesmo em uma inovação, que pode ou não dar certo, e tem mais risco? Qual é a pessoa que quer perder dinheiro?”, questionou.

Vetos ao Marco Legal

A presidente da SBPC criticou ainda o fato de o novo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação ter sido sancionado com o veto no incentivo à micro e pequena empresa. No total, foram oito vetos à nova legislação. “Como pode ter inovação no país?”.

De acordo com Nader, quanto maior é a ciência maior é a inovação de um país. A China, por exemplo, há 20 anos estava atrás do Brasil e agora figura entre os grandesplayers mundiais, por força dos investimentos na educação e na pesquisa. Hoje o país asiático aplica 2% do Produto Interno Bruto (PIB) na área de ciência e tecnologia, com a previsão de atingir 2,1% até 2020, destacou ela.  Enquanto isso, o investimento brasileiro gira em torno de 1,2%.

Já a média de investimentos dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – que reúne os países mais industrializados do mundo – é de 2% do PIB, com destaque para Coreia, com 4,29%. Nader acrescentou que a União Europeia, mesmo diante da crise econômica, deve investir 3% até 2020.

No continente sul americano, se destaca a Argentina, que está ativa e apostando na C&T. Segundo ela, o país vizinho desenvolveu um programa pelo qual é possível criar online uma empresa em 24 horas e também criou 10 fundos de apoio à inovação.

Na contramão do mundo, lembrou Nader, o orçamento da pasta de ciência, tecnologia e inovação do Brasil deve ser congelado na pior “fotografia” dos últimos anos (em torno de R$ 5 bilhões), diante do avanço da aprovação da PEC do teto dos gastos públicos. Ela reiterou que o valor é praticamente a metade dos R$ 9 bilhões de 2013.

A PEC, já aprovada na Câmara dos Deputados, foi aprovada nesta quarta-feira, 11, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), do Senado, onde segue para o crivo do plenário da Casa.

Reflexos da ciência na economia

Mesmo diante das dificuldades, a presidente da SBPC discorreu sobre os impactos positivos da ciência em setores econômicos, como a agricultura (soja, laranja, frutas tropicais e cereais), na automação (bancária), aviação e ciências espaciais (Embraer), bicombustíveis (etanol e biodiesel), controle de insetos, doenças tropicais (impacto do Zika), extração de petróleo em águas profundas. E também as plantações de eucalipto, cultura proveniente da Austrália e domesticada para produzir papel branco internamente, além de carnes de bovino e aves.

Nader entende, contudo, ser preciso inverter a pauta da balança comercial, hoje baseada em produtos com pouco valor agregado. “O Brasil e os nossos políticos ainda não perceberam que o mundo está na economia do conhecimento”, observou.

Exigências do século XXI

A presidente da SBPC listou alguns pontos da agenda nacional da pesquisa do século XXI e recomendou a definição de vocações para alguns grandes temas da ciência. Tais como, ciências agrárias e veterinárias, tecnologia da informação e comunicação, a produção dos chamados fármacos monoclonais (tratamento de câncer e outras enfermidades), energia nuclear, biodiversidade, bioenergia, Amazônia verde (floresta) e Amazônia azul (rios).

Ela também considerou importante repensar a universidade e torná-la mais flexível. “Estamos no século 21 com a universidade do século 19”, avaliou.

Acrescentou que, além da infraestrutura necessária, a forma de fazer pesquisa no século XXI requer uma rede de pesquisa multidisciplinar para trabalhar em grupo e em rede integrando a ciência e tecnologia produzida pelas universidades, institutos de pesquisa e empresas.


Fonte: Jornal da Ciência / Por: Viviane Monteiro.

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