Especialistas apontam desafios da ciência brasileira

Onze pesquisadores traçaram um diagnóstico do estado da arte da pesquisa em suas respectivas áreas de conhecimento e apontaram perspectivas para o avanço da ciência brasileira nos próximos anos. As apresentações fizeram parte de um simpósio em comemoração ao centenário da Academia Brasileira de Ciências (ABC). A queda do impacto, o foco e a governança da política brasileira de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) foram citados com os principais entraves para o desenvolvimento das pesquisas e consequentemente da inovação na cadeia produtiva brasileira.

“O impacto da ciência brasileira está caindo, apesar do número de trabalhos aumentar”, diagnosticou José Goldemberg, presidente da Fapesp. Isso decorre, em sua avaliação, da falta de foco de pesquisas, que pulverizam recursos, geram frustrações, inibem o surgimento de “ideias novas” e distanciam a ciência da sociedade.

Os pesquisadores apontaram ainda que o atual quadro da CT&I no Brasil é agravado pelo sistema de avaliação das agências de fomento, que enfatizam o número de artigos publicados e não necessariamente a qualidade. “Temos que introduzir sistemas de avaliações novos para medir corretamente esse impacto”, defendeu Goldemberg.

Para Luiz Davidovich, presidente da ABC, produzir papers é importante, mas não deve ser a única função do pesquisador. “A diferença entre ciência básica e aplicada está cada vez mais difusa por conta da rapidez com que se desenvolvem a pesquisa e as novas tecnologias. Precisamos seguir avançando na direção de inovações disruptivas”, disse.

Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da Fapesp, afirmou que o Brasil “aprendeu” a fazer ciência e a formar recursos humanos, tanto que cresceu o número de artigos publicados e de doutores. “Mas esse número ainda é insuficiente e a qualidade do que se faz também. Há, portanto, o desafio de compatibilizar a expansão ainda necessária com o apoio a núcleos de excelência em áreas prioritárias”, afirmou.

Para Krieger, o grande desafio da ciência é produzir e usar o conhecimento para o desenvolvimento social e econômico. Ele avalia que o diálogo da ciência com o setor produtivo tem sido profícuo, mas não identifica o mesmo sucesso na interlocução com o setor de saúde. “A pesquisa em cooperação com o setor público é pouco explorada.”

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, ressaltou que o impacto social e econômico da ciência não depende apenas da universidade. “Quem leva o impacto à sociedade é o governo ou a empresa. Universidade não faz produtos, ou cria políticas. A empresa deve ter pesquisadores que foram bem educados em universidades e capazes de criar novos produtos, processos e serviços. Acontece que a economia brasileira tem um sistema de desincentivo à pesquisa nas empresas.”

A questão do impacto e foco da ciência no país, a qualidade da formação de recursos humanos e o papel do Estado no compartilhamento do conhecimento com a sociedade também foi debatido no simpósio. “O Brasil precisa ter uma agenda top down de pesquisa. As agendas tentam contemplar todos os setores e não têm foco. Falta governança na pirâmide de decisões no País”, diagnosticou João Fernando Gomes de Oliveira, vice-presidente da ABC e ex-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Na avaliação de Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, o quadro de governança é agravado pelo fato de as agências terem perdido a “capacidade de ter massa crítica”, comprometendo a capacidade técnica do Estado.

Pacheco lembrou que o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) – criado em 2001, durante a 2ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, no período em que ocupava o cargo de secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia – foi concebido como uma “instância geradora” de temas para os Fundos Setoriais – constituídos dois anos antes. “Em vez de fazer top down do Planalto, o CGEE ouvia a planície. Esse papel precisa ser resgatado.”

Organizado pela Fapesp, o simpósio também marcou o lançamento da exposição que conta história dos 100 anos da Academia Brasileira de Ciências está apresentada na sede da FAPESP por meio de uma exposição interativa. Em cartaz até 29 de novembro, com visitação gratuita, a exposição traça uma de linha do tempo que permite aos visitantes conhecer as principais descobertas da ciência brasileira e mundial e o desenvolvimento das instituições e políticas científicas desde 1916 até os dias atuais.


Fonte: Agência Gestão CT&I, com informações da Fapesp.

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