Óleos essenciais microencapsulados substituem antibióticos sintéticos no tratamento de suínos

A suinocultura é uma área altamente relevante da pecuária brasileira. No entanto,  em relação à saúde dos animais, principalmente na fase de leitões, há desafios para a manutenção da produção, da qualidade da carne e do bem-estar dos animais. Dentre eles, a doença colibacilose, que segue presente em unidades de produção e é considerada o mais relevante problema veterinário relativo aos suínos. A enfermidade é causada pela bactéria Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC) – que pode ser nociva também para seres humanos – ocasionando ou agravando quadros de diarreia e da chamada doença-do-edema. No caso de leitões de até 3 dias, a doença pode levar à morte em questão de algumas horas.

A gravidade da doença levou o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA), da Unicamp, a buscar uma solução. Na pesquisa foram selecionados dois óleos essenciais de plantas medicinais que, combinados, atuam como inibidores dessa bactéria nociva para suínos. O emprego da técnica de microencapsulação permite que os compostos presentes nos óleos sejam liberados na ração dos animais de maneira controlada.

A tecnologia concebida na Unicamp foi depositada na forma de patente no Brasil e no exterior e já está licenciada junto a uma empresa de saúde animal, a Ourofino Agronegócio. “Estão sendo realizados alguns testes complementares e a intenção é que, em breve, o produto seja comercializado”, diz a pesquisadora Marta Cristina Teixeira Duarte, do CPQBA, que coordenou a pesquisa. Segundo ela, a novidade traz significativos resultados no enfrentamento da colibacilose.

Por se tratar de uma doença entérica, as atividades de prevenção e controle devem se basear invariavelmente nos cuidados com a alimentação dos animais. Essencialmente na fase de leitão, quando os animais ainda estão se adaptando à inserção de produtos diversos na dieta, a contaminação da ração por E. coli pode ser grave, e estima-se que cerca de 15-20%  dos leitões, atualmente, acabam morrendo em decorrência da colibacilose antes do desmame. Segundo Duarte, o controle da bactéria é usualmente feito via aditivos sintéticos adicionados à ração, que “nada mais são que antibióticos, que agem como promotores de crescimento, uma vez que controlam a doença causada pela bactéria”.

Por mais que diversas organizações, destacando-se a OMS (Organização Mundial da Saúde), venham sistematicamente recomendando o abandono do uso massivo de antibióticos sintéticos na criação animal, esta prática tem ainda espaço, quer por inércia ou comodidade, quer por falta de alternativas em alguns casos. “Tais aditivos deixam resíduos nos produtos comestíveis, contaminam o ecossistema e contribuem para o desenvolvimento de cepas microbianas resistentes”, reforça a coordenadora da pesquisa.

A pesquisa

O objetivo da pesquisa foi viabilizar um produto microencapsulado que servisse como aditivo de origem natural à ração dos suínos e que, combatendo os sintomas advindos da colibacilose, atuasse também como promotor de crescimento, em substituição aos antimicrobianos sintéticos.

Para tanto, a pesquisadora do CPQBA explica que dentre 29 plantas medicinais estudadas foram selecionadas duas espécies – ambas utilizadas na medicina popular, como anti-inflamatório e antiespasmódico –, o capim-limão (Cymbopogon citratus) e a palmarosa (Cymbopogon martini). O motivo da escolha, conta Marta, foi a constatação prévia de seu potencial contra a bactéria E. coli em ensaios de laboratório.  As variedades utilizadas provieram da Coleção de Plantas Medicinais e Aromáticas (CPMA), sediada no próprio CPQBA.

Após a etapa de testes laboratoriais, promoveu-se a combinação dos dois óleos essenciais obtendo-se uma blenda, ou mistura, que foi então microencapsulada.

Antes de ser fornecida aos leitões, a blenda teve que ser avaliada quanto a parâmetros toxicológicos, constatando se seria ou não nociva à saúde de ratos criados em laboratório. Administrado oralmente aos roedores, o produto não teve, ao término do período de testes, nenhuma alteração comportamental ou fisiológica detectada. Finalmente, os óleos essenciais microencapsulados foram adicionadas à ração dos leitões na chamada fase de creche (28 a 63 dias) com a finalidade de avaliar seu impacto na saúde dos animais e eventuais efeitos adversos.

De acordo com Milleni Michels, coordenadora de propriedade intelectual da Ourofino Agronegócio, investir em parcerias de inovação com a Unicamp é algo de caráter promissor. “Há uma importante troca entre as partes. Os dois lados têm conhecimentos que se complementam, além do compartilhamento de estrutura física”, comenta ao explicar quais são os benefícios desse tipo de relacionamento. “Essa troca permite avançar em certos pontos da pesquisa, por certas vezes acelerar, e ainda capacitar recursos humanos”.

Resultados

O uso do produto desenvolvido pela equipe do CPQBA apresentou efeito positivo no ganho de peso dos leitões. Os animais alimentados com a ração acrescida do novo produto baseado nos óleos essenciais apresentaram melhor desempenho quando comparado ao grupo de leitões que não recebeu nenhum tipo de aditivo, sem, contudo, demonstrar qualquer efeito tóxico. Quando comparado a um aditivo melhorador de desempenho sintético, a enramicina, não houve diferenças significativas, o que demonstra que os óleos essenciais têm grande potencial como substituinte natural desses produtos.

“Esperamos lançar o produto que aplica a tecnologia desenvolvida em breve e, com isso, além do faturamento e ganho de mercado, levar uma solução diferenciada ao criador, nosso cliente”, diz Michels. Milenni define a parceria como tendo sido “muito interessante” e diz estar sendo mantido um estreito relacionamento entre a empresa e o CPQBA, dado o interesse de, futuramente, co-desenvolverem novas tecnologias.


Fonte: Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I

Por: Gustavo Steffen de Almeida

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